segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Respiração

Respirar direito abaixa a pressão

E não é só isso: também auxilia a controlar a ansiedade e a tratar uma série de doenças



Quando alguém leva um susto, prende o ar. Se está com medo, inspira e expira com pressa. Em uma situação de raiva, puxa o oxigênio e libera gás carbônico com mais força. Sem que a gente se dê conta, a respiração denuncia toda sorte de alteração no organismo — seja fisiológica, seja mental. “É o termômetro das nossas emoções”, ressalta a psicóloga gaúcha Ana Maria Rossi, diretora da Clínica de Stress e Biofeedback, em Porto Alegre.
Na última década, ganharam fôlego pesquisas que analisam o caminho contrário, ou seja, os efeitos da respiração na saúde de um modo geral. E os resultados apontam que ela é um coadjuvante eficaz no tratamento de doenças. No Laboratório de Pânico e Respiração da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a prática de exercícios respiratórios diminui significativamente o uso de medicamentos em pacientes que sofrem com o transtorno de pânico, marcado por ataques de medo sem a iminência de um perigo real.
Segundo o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, coordenador do laboratório, existe um elo estreito entre esse distúrbio e a respiração. “Pessoas com asma têm maior chance de desenvolver o pânico”, exemplifica. Os sintomas respiratórios são extremamente comuns durante os ataques. Na via oposta, Nardi explica, monitorar a entrada e a saída do ar ajuda a aplacar a ansiedade e a controlar as crises.
A sensação de calma e relaxamento provocada pelas técnicas respiratórias não é exatamente uma novidade. Basta lembrar que há 5 mil anos a medicina oriental faz uso delas. A respiração controlada tardou a ser aceita pela medicina do lado de cá do globo, mas agora vem ganhando cada vez mais força. É que novos estudos conseguiram demonstrar sua ação no sistema nervoso autônomo, que modula as funções vitais involuntárias, como a temperatura do corpo, a pressão arterial e a própria respiração. Ele está dividido em dois: o simpático, que entra em ação nas situações de alerta, disparando substâncias que estimulam o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, e o parassimpático, que faz justamente o contrário, levando o corpo de volta ao seu estado natural.
“Das funções coordenadas por esse sistema, a única que se pode controlar é a respiração”, afirma o pneumologista Geraldo Lorenzi Filho, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo (Incor). Por esse motivo, os médicos já estão lançando mão de exercícios respiratórios não apenas para reduzir o estresse mas também para tratar hipertensão e amenizar dores crônicas. “E o melhor é poder levar esse recurso na bagagem pessoal”, acredita Ana Maria.
Na semana em que conversou com SAÚDE!, o farmacêutico Daniel Zoccal, especializado em fisiologia, embarcou para os Estados Unidos para receber um prêmio da Sociedade Americana de Fisiologia. Sua pesquisa de doutorado, realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, no interior do estado, se debruça justamente sobre o elo entre a respiração e a função cardiovascular. “O trabalho mostra que mecanismos ligados ao controle respiratório podem favorecer o desenvolvimento da hipertensão”, revela.
Para investigar essa hipótese, o pesquisador submeteu ratos a uma das situações enfrentadas por quem sofre com apneia do sono, quando a passagem de ar pela garganta é interrompida diversas vezes ao longo da noite. As cobaias que ficavam períodos de 30 segundos com a quantidade de oxigênio reduzida apresentaram aumento da pressão sanguínea. “Os vasos possuem sensores que enviam ao cérebro a mensagem de que falta oxigênio”, explica Zoccal. Aí, a tal da atividade simpática entra em cena, acelerando os batimentos cardíacos e promovendo a constrição dos vasos. “Em um animal saudável, assim como no ser humano com boa saúde, a inspiração é um processo ativo e a expiração é passiva”, pontua o pesquisador. Já nos ratinhos do seu experimento, tanto a entrada como a saída do ar eram ativas — um jeito de respirar que, aliás, lembra o dos asmáticos.
Apostar na prática de exercícios de respiração, na contrapartida, poderia reverter quadros de pressão elevada e contribuir para a manutenção de um coração mais saudável. Em um trabalho ainda não concluído — também da Faculdade de Medicina da USP, mas desta vez na capital paulista —, o educador físico Danilo Santaella investiga os efeitos do treinamento respiratório sobre a variabilidade cardíaca, que é a capacidade do coração de se adaptar a mudanças externas. Duas vezes ao dia, um grupo de idosos pratica o bhástrika, um tipo de respiração da ioga que concilia expirações rápidas com a contração abdominal, seguidas de inspirações lentas e profundas. “Os resultados preliminares mostram um aumento do componente parassimpático, da capacidade respiratória e da autonomia desses voluntários”, conta Santaella.
O alívio das dores e do mal-estar em pacientes com câncer é mais um benefício clinicamente comprovado da respiração adequada. Desde 2003, a unidade de cuidados paliativos do Instituto Nacional de Câncer (Inca) une movimentos da fisioterapia a inspirações e expirações controladas em prol da qualidade de vida. “Os exercícios promovem um relaxamento que ajuda a reduzir dores e o estresse em pacientes terminais”, afirma a fisioterapeuta Juliana Miranda Dutra de Resende, do Inca. Ela enfatiza que, especialmente nesses casos, é essencial o acompanhamento de um profissional capacitado.
Em busca de equilíbrio físico e emocional, a aposta dos médicos tem sido a respiração diafragmática, aquela que realizamos naturalmente quando bebês, movimentando o abdômen. “Por causa de fatores como estresse e poluição, com o tempo a tendência é respirarmos de maneira mais curta e superficial”, comenta a psicóloga Cristina Armelin, instrutora sênior da Fundação Arte de Viver, uma organização não governamental que ensina técnicas de respiração, meditação e ioga em 150 países. Dessa maneira, não aproveitamos toda a capacidade dos pulmões. E isso é ruim não apenas por causa das novas descobertas da ciência citadas nas páginas anteriores. Resgate na memória as aulas de biologia. O oxigênio participa de reações químicas nas mitocôndrias, organelas que ficam dentro das células. Elas são responsáveis por gerar a energia necessária à sobrevivência de todos os tecidos do organismo. Quer dizer: sem respiração, nada de energia.
“É importante, no entanto, ter a consciência de que existe hora certa para o trabalho respiratório”, enfatiza César Deveza, que pesquisa técnicas de respiração no Laboratório de Fisiologia Integrada e Sono, no Incor. Forçar a lentificação da inspiração e da expiração pode ser bem aflitivo — ainda mais em um momento estressante ou em um ambiente que exige atenção. “Cada situação pede uma maneira diferente de respirar, e o corpo dá conta dessas mudanças naturalmente”, resume o educador físico e professor de ioga Marcos Rojo, da Universidade de São Paulo.
Para aprender exercícios específicos, a orientação de um especialista é sempre indispensável: existem diversos métodos que modulam a ventilação dos pulmões por meio de estímulos diferentes. Na ioga, por exemplo, que não tem a respiração como um fim em si, mas como uma ferramenta inerente à sua prática, valoriza-se a pausa e o prolongamento da expiração.
Quando o corpo respira de maneira adequada, até as costas saem ganhando. “O encurtamento do diafragma pode sobrecarregar a coluna”, alerta Rojo. É que esse músculo está ligado às vértebras cervicais e lombares. Daí, quando não trabalha direito, elas acabam prejudicadas. Por isso é tão importante fortalecê- lo e torná-lo eficiente como um bom elástico: forte e flexível. A crescente procura por cursos como o da Arte de Viver são um indício de que o cuidado com a respiração tem melhorado a vida de muita gente. “Os exercícios ajudam a tratar inclusive doenças como asma, bronquite e sinusite”, garante Cristina Armelin. E, mesmo que não promovessem tantos benefícios, simplesmente renovar o ar que circula nos pulmões — principalmente para quem vive em centros urbanos — não é má ideia.

Respirar é preciso


Você não presta atenção nesse ato involuntário, mas há coisas que é bom saber sobre o ar que entra e sai sem pedir licença durante a atividade física

Inspire, expire. Deixe que o ar entre e saia livremente. Após uma hora de corrida puxada, tente repetir esse exercício. Haja fôlego para seguir no mesmo ritmo! Também, com a respiração ofegante, quem consegue? E aí bate uma certa preocupação: insistir na atividade física nessas condições seria perigoso? Afetaria o desempenho? Se você não tem nenhum problemaorgânico nem é atleta fissurado em performance, não precisa se preocupar com o ritmo arquejante. "Em pessoas saudáveis, o corpo se encarrega de equilibrar a entrada do oxigênio e a saída do gás carbônico", explica o fisiologista Paulo Zogaib, do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. O médico do esporte Antonio Claudio Nóbrega, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (regional Rio de Janeiro), concorda: "Na maioria dos exercícios, o melhor é nem prestar atenção na respiração". Para o pneumologista Clystenes Odyr Soares Silva, da Universidade Federal de São Paulo, o fundamental, sempre, é que o ar entre pelo nariz. "Ele filtra, umidifica e aquece o gás, deixando-o mais adequado para o corpo." Há situações, porém, em que é preciso, sim, respirar conscientemente para otimizar a atividade física. 

 
DÊ UM GÁS
Alguns erros comuns na hora do exercício, como os descritos a seguir, podem causar prejuízos


1. DURANTE OS ABDOMINAIS
O certo é expirar durante a subida e inspirar na descida. Isso porque, quando o corpo se eleva, o espaço da caixa torácica diminui e o excesso de ar vai pressionar a região. Segundo o angiologista Ary Elwing, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, essa compressão costuma, causar problemas de circulação, principalmente varizes, em pessoas que já têm predisposição para o mal.

2. AO LEVANTAR PESO...
...nunca, jamais prenda a respiração. "Do contrário a pressão causada pelo acúmulo de ar sobre a área do coração pode provocar hipertensão arterial a longo prazo", alerta Paulo Zogaib. Na opinião de Antonio Claudio Nóbrega, essa compressão favorece ainda o aparecimento de pontadas no peito. "Sempre que for contrair um músculo, expire o ar."

3. DEIXE O BATE-PAPO PARA DEPOIS
Durante uma conversa, precisamos soltar o ar para que as cordas vocais vibrem. Isso pode atrapalhar aquele equilíbrio natural da respiração que está sendo mais exigido durante qualquer exercício. "Não há problemas em dizer algumas frases, mas falar o tempo todo decididamente não é indicado", diz Antonio Claudio Nóbrega. Segundo Paulo Zogaib, se você consegue falar durante a atividade sem problemas, é sinal de que pode aumentar a intensidade da malhação.

O VAIVÉM SEM FIM 

 

Fonte: saude.abril.com.br

Por Thais Szego / designer Samara Araújo

Produção Andrea Silva | Decathlon | Track&Field | Reebok

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